André Miranda, Isabela Bastos e Isabel de Araújo (segundocaderno@oglobo.com.br)
RIO - Quando o Guns N Roses descer do Palco Mundo nas primeiras horas de amanhã, os DJs silenciarem, e o público deixar, enfim, a Cidade do Rock, o Rio terá encerrado seu primeiro grande teste como sede de um evento internacional de massa desde que foi escolhido para abrigar os Jogos Olímpicos de 2016. Além da festa com 700 mil pessoas e 170 atrações, numa maratona de 98 horas de música, o festival deixa, segundo a Riotur, quase R$ 800 milhões em arrecadação nos cofres da cidade e vários exemplos a seguir, além de lições a aprender.
Entre os shows, destacaram-se nomes como Joss Stone, Metallica, Stevie Wonder, Janelle Monáe, Sepultura e Shakira. Entre o público, as diferentes tribos convivendo em harmonia, fosse diante dos palcos, fosse brincando na roda-gigante ou se refrescando nos chafarizes da Cidade do Rock. De crianças a metaleiros de cabelos brancos. Num mês morno, em que a taxa de ocupação dos hotéis costuma variar entre 60% e 70%, nos dias de show ela chegou a 100%, segundo o Rio Convention & Visitors Bureau. Afinal, o festival trouxe à cidade 315 mil turistas, 20% deles do exterior, principalmente do Mercosul. Está aí o primeiro gargalo da cidade.
- Nosso aeroporto internacional está perdido no tempo, com uma defasagem de 60 anos para outros terminais no resto do mundo - reconhece o superintendente geral do Rio Convention & Visitors Bureau, Paulo Senise.
Entre os problemas principais do festival, houve engarrafamentos, falhas no sistema de ônibus e furtos, muitos furtos, dentro e nos arredores da Cidade do Rock. No primeiro fim de semana do evento, quando 300 mil pessoas estiveram por lá, foram 417 casos. Com a segurança reforçada em 30%, os números caíram bastante. Ainda assim, anteontem e na última quinta-feira, houve mais de cem casos. Números bem superiores, por exemplo, aos 33 furtos registrados no show que os Rolling Stones fizeram para 1,2 milhão de pessoas na Praia de Copacabana, em 2006. O esquema de transportes organizado pela Fetranspor ainda demonstrou fragilidade nos primeiros dias, quando ônibus especiais e circulares ficaram superlotados e tiveram atrasos. Pilhas de lixo no chão e filas quilométricas nas lanchonetes da Cidade do Rock também causaram má impressão em quem passou por lá no fim de semana passado. Mas os organizadores correram, e o cenário nos últimos dias foi muito melhor.
Com base nessas experiências, o prefeito Eduardo Paes deve baixar nos próximos dias um decreto com normas para eventos de grande porte - mesmo privados -, como o bloqueio de ruas, o ordenamento do transporte coletivo e obrigações de infraestrutura a serem seguidas por seus organizadores. Incluindo, até, o número de banheiros com água e esgoto, de acordo com a expectativa de público.
Prefeito diz ter feito ótimo negócio, artistas defendem que o Rio precisa melhorar
Há tempos, o cantor, compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil declarou que o Brasil precisava dar mais festas, argumentando que, antes de qualquer comemoração, se costuma arrumar a casa. Anteontem, no Rock in Rio, o produtor musical Liminha, que trabalhou como operador de som na edição de 1985, tocou com os Titãs em 1991 e se apresentou com a banda The Silvas em 2001, retomava a ideia:
- O Gil tinha razão. O que a gente precisa mesmo é dar mais festas aqui.
O balanço que o baterista da Legião Urbana, Marcelo Bonfá, faz do quarto Rock in Rio segue a mesma linha:
- Um evento como este mostra que é preciso se preparar melhor. Estava tudo bom na Cidade do Rock, mas ainda há coisas por fazer fora dela para se atingir um novo estágio.
Para o prefeito Eduardo Paes, o poder público fez um "ótimo negócio" ao investir R$ 54 milhões nos preparativos do festival, incluindo a construção do Parque dos Atletas (temporariamente transformado em Cidade do Rock), a operação de trânsito e o controle urbano nas proximidades do evento.
- Além do retorno direto que o Rock in Rio deu à cidade, há um retorno difícil de ser contabilizado, que é o tempo de exposição do Rio na televisão e sua repercussão em todo o mundo - ressalta.
Tomando por base a estimativa de arrecadação divulgada pela Riotur, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Julio Bueno, debruçou-se sobre a calculadora e diz que o retorno financeiro apenas com ISS (Imposto Sobre Serviços) e ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) deve chegar a R$ 51 milhões. Para ele, é a chance de o Rio pôr os pés no século XXI.
- Nossa matriz econômica tem sido a produção de energia, mas precisamos sair dessa economia do século XX para entrar na do século XXI, marcada pela economia criativa - ele destaca. - O Rock in Rio é um exemplo de quão importante é esse tipo de economia. Temos que ser um misto de Houston e Barcelona, as capitais mundiais de energia e entretenimento.
Idealizador do festival, Roberto Medina vê o desfecho desta edição como "um primeiro ensaio do que virá pela frente" e já fala sobre setembro de 2013.
- O próximo Rock in Rio será ainda mais alinhado com a Copa e as Olimpíadas. A cidade estará mais perto das condições que teremos na época desses grandes eventos esportivos. Porém, uma mobilização com cem mil pessoas por dia num mesmo local e durante tantos dias é maior do que qualquer ação que teremos depois. Até lá, haverá aparelhagens públicas como o metrô e as BRTs em funcionamento - diz.
No sábado, enquanto percorria a Cidade do Rock, o prefeito dizia que a fluidez no trânsito é o principal aspecto a ser melhorado na infraestrutura da cidade.
- Aprendemos que num grande evento não dá para priorizar o carro como transporte, e acredito que a dinâmica da alimentação e algumas coisas sobre os banheiros podem ser revistas.
Para o presidente da Riotur, Antônio Pedro de Mello, o Rio vive "um momento histórico" e apresenta "grande maturidade na organização de eventos".
- Nos próximos anos teremos a conferência Rio +20 (2012), a Jornada Mundial da Juventude (2013), a Copa do Mundo (2014), os 450 anos do Rio (2015), as Olimpíadas (2016) e mais Rock in Rio.
Em sete dias, o festival fez lotar os hotéis da cidade. Para Paulo Senise, do Rio Convention & Visitors Bureau, ele também revelou um terreno fértil para iniciativas particulares, como a de moradores da Barra que transformaram suas casas em albergues temporários. Eventos de grande porte, ele lembra, movimentam não só a rede hoteleira como 54 outros setores da cadeia produtiva. Do vestuário à alimentação.
- A gente sabe que muita coisa precisa melhorar, mas o Rio tem uma oportunidade única - diz João Barone, baterista do Paralamas do Sucesso, que tocou no primeiro Rock in Rio e retornou para o show de abertura deste ano. - Estamos com um tesouro nas mãos.